3. Aparelho cardiovascular

Antes da revisão dos fármacos com interesse no tratamento das doenças do foro cardiovascular, justificam-se algumas considerações prévias. A primeira diz respeito à metodologia de uma abordagem terapêutica que se quer geral, holística e integrada: neste capítulo impõe-se p. ex. a recomendação universal de adoção de estilos de vida saudável; a segunda tem a ver com as dificuldades de classificação farmacológica. À semelhança do que acontece com o tratamento de situações patológicas inerentes a outros aparelhos e sistemas, também a terapêutica cardiovascular implica, em termos genéricos, quatro formas de abordagem: 1. prevenção da situação patológica; 2. remoção da causa precipitante; 3. correção dos mecanismos de adaptação subjacentes; 4. controlo do estado clínico per se. Tomando como exemplo a doença coronária, é pois crucial o controlo dos fatores de risco (HTA, tabagismo, diabetes mellitus, hipercolesterolemia, obesidade, stress), a redução dos efeitos das concausas (ex: tratamento da IC ou de arritmias que eventualmente existam; correção de uma possível anemia) e o tratamento farmacológico dirigido à situação clínica.
No que respeita à classificação dos fármacos, é cada vez mais difícil, em termos conceptuais, confiná-los a grupos estanques. Assim, um determinado fármaco pode ter várias indicações terapêuticas (ex: IECAs - indicados no tratamento da HTA e da IC); e também é verdade que uma determinada situação clínica pode ter uma abordagem multifarmacológica. É o caso da IC, em que, graças a uma melhor compreensão atual dos seus mecanismos fisiopatológicos, tem sido possível a utilização de fármacos que não reduzem apenas a sintomatologia mas também aumentam a sobrevida. De facto, o prognóstico da IC está também dependente de alterações estruturais, funcionais, bioquímicas, celulares e da excessiva ativação dos mecanismos neurohumorais vasoconstritores e antinatriuréticos (sistemas adrenérgico e renina-angiotensina-aldosterona), em sobreposição aos mecanismos vasodilatadores e natriuréticos (que também estão ativados). Atualmente, o tratamento farmacológico da IC inclui a utilização de medicamentos que contrariam a excessiva adaptação dos mecanismos neurohumorais vasoconstritores e antinatriuréticos. Aqui reside a importância dos modificadores do eixo renina-angiotensina-aldosterona. Atualmente, o tratamento da IC crónica tem como pilares fundamentais os diuréticos (melhoram os sintomas e a retenção hidrosalina), alguns bloqueadores beta (ex: carvedilol, nebivolol, metoprolol e bisoprolol) que pelo menos no início de tratamento devem ser ministrados em baixas doses, os IECAs e eventualmente os ARAs, a espironolactona/eplerenona e mais recentemente a ivabradina e o sacubitril/valsartan - LCZ696 (diminuem a morbilidade, melhoram o prognóstico e aumentam a esperança de vida nomeadamente na presença de função sistólica deprimida); em doentes mais graves recomenda-se o aumento lento e progressivo das doses destes fármacos com vigilância da calemia e da função renal; em certos casos os digitálicos poderão ser úteis (especialmente se houver determinadas perturbações de ritmo, tais como fibrilação e flutter auriculares). No tratamento das doenças cardiovasculares existem disponíveis várias associações de medicamentos (dirigidos ao mesmo ou a mais do que um fator de risco cardiovascular) em dose fixa na mesma preparação farmacêutica destinadas a facilitar a adesão dos doentes ao tratamento.